Lugares & Pessoas Memoráveis: Uma Entrevista com Camilla Ferrari

2017-03-28

Camilla Ferrari primeiramente começou com a fotografia de paisagens e viagens, mas ela descobriu um mundo completamente novo da fotografia de rua. Ela sempre está em busca de lugares e pessoas inspirativas e a sua habilidade de capturar a sua essência é porque nós amamos o seu trabalho tanto assim. Nesta entrevista, Camilla revela o que primeiramente a levou à fotografia como também o que a motiva a criar esta linda arte todos os dias.

Oi Camilla! Seja bem-vinda à Lomography Magazine! Em quais projetos criativos você está trabalhando no momento?

Oi gente! Obrigada pelo convite para entrevista. É ótimo ter a chance de falar um pouco sobre o meu trabalho. Talvez isto surpreenda alguns, mas o projeto em qual eu estava trabalhando nos últimos meses não envolve fotografia urbana de jeito nenhum. Eu decidi a me desafiar e abrir a minha mente para criar algo que diz respeito às pessoas, mas de uma maneira completamente diferente, misturando medias de modo bastante contemporâneo – e também combinando imagens e palavras. Eu não posso dizer mais, mas vocês verão o resultado em breve...

O que influenciou a sua escolha de embarcar em uma jornada fotográfica? O que te fez se apaixonar pela fotografia?

Eu comecei fotografia quando eu tinha 13-14 anos. Meus pais queriam que eu tivesse boas memórias dos meus passeios com a escola e assim eles me deram uma câmera de presente. Mas eu não usava ela nos passeios – na verdade, eu comecei a fazer autorretratos e depois criava mundos surreais ao redor. Eu podia passar horas non-stop no meu quarto usando a minha lâmpada de escrivaninha e os meus livros como um tripé. Eu amava o fato deu poder criar algo que não estava lá mas em algum lugar na minha mente, eu podia controlar as coisas. Eu podia decidir quem eu queria ser, onde e quando.

Então foi assim que começou, e quando eu estava crescendo, eu saí do meu quarto para viajar com a minha família e a minha paixão mudou gradualmente para a fotografia de paisagens – na época eu não gostava de pessoas nas minhas fotos. Eu procurava os lugares mais vazios porque eu queria transmitir a grandeza da natureza, e seres-humanos eram uma distração pra mim. Essas coisas me fazem rir o tempo todo, considerando que eu agora fotografo no meio da rua, procurando uma multidão e observando pessoas com muita atenção.

Mas eu acho que a parte do controle ainda continua assim: a fotografia de rua me deixa dá ordem a algo que aparentemente não faz sentido nenhum. Eu posso sentir o ritmo do caos e decidir quando parar ele ou como seguir ele.

Depois de você se formar da universidade, você viajou pelo mundo todo para se focar mais no seu trabalho fotográfico. Quais são as suas memórias mais queridas desta viajem?

Viajar é como oxigênio para mim. Isso não significa necessariamente que eu passo meses longe de casa, mas eu acho constantemente sinto uma necessidade de me surpreender com os meus arredores. Eu quero encher os meus olhos com novas imagens, meu nariz com novos cheiros e meus ouvidos com novos sons. Então eu tento viajar o máximo possível para lugares diferentes. Cada um deles teve uma influência no meu trabalho, mas eu acho que uma das viagens que me mudaram mais foi uma que eu fiz para Marrocos em 2014, mesmo sendo uma das mais difíceis, porque eu percebi que eu preciso de pessoas nas minhas fotos, mas no começo eu não sabia como me aproximar.

Marrocos pra mim, foi um treinamento imenso e me preparou para as experiências que seguiram. Um ano depois, eu fui pro Camboja, o que também foi um momento decisivo porque eu estava questionando se eu estava indo na direção certa em termos da minha fotografia – mas também como pessoa – e de estar lá na época me ajudou a refletir sobre isso. Um episódio que eu lembro claramente foi o pôr-do-sol, eu estava em uma montanha na região de Battambang, bem embaixo de uma caverna de morcegos. De repente eu ouvi o barulho das asas dos morcegos voando pra fora da caverna, por cima da floresta, finalmente chegando perto do sol lentamente desaparecendo no horizonte... foi o meu momento de paz e recarga.

A última viagem importante que eu fiz foi em Senegal verão passado, que resultou no meu último projeto chamado “Mangi fi”, que significa “Estou aqui, estou bem” e é a resposta que o povo de Senegal dá para a pergunta “Como vai?”. Tem tanta coisa pra contar desta viagem – e eu não quero ser mais prolífica do que eu já estou sendo – mas uma das coisas que eu lembro mais são as horas nos ônibus e transportes públicos. Eu adorava ver as pessoas indo de um lugar pro outro, ver como cada pessoa é diferente, observar seus comportamentos até nas situações mais desconfortáveis – nós estávamos em ônibus lotados sem ar condicionado com temperaturas até 50 graus Celsius por seis horas. Non-stop. E foi uma das melhores experiências da minha vida.

O que te levou a fotografia de rua? O que te inspira, as pessoas ou todos esses lugares especiais que você tem o prazer de visitar?

Como eu disse, por alguns anos eu me dediquei à fotografia de paisagens e depois à fotografia de viagens. Assumindo que os limites entre gêneros fotográficos são realmente efêmero às vezes, eu diria que a minha mudança para a fotografia de rua foi bem lenta desencadeada pelas palavras de alguns fotógrafos que eu admirava que me diziam pra “chegar mais perto”, para mim curtir mais. Pra estar no meio dos acontecimentos, a me jogar no furacão de eventos que acontecem na vida diária. Então eu comecei a sair e fotografar – até em Milano, a minha cidade natal e o lugar onde eu moro, pra mim sempre foi difícil fotografar porque eu tenho muita história aqui. O que é uma ótima vantagem, mas também um filtro e um limite do que eu vejo.

Para responder a sua pergunta, eu acho que é uma mistura de ambos, as pessoas e os lugares. Eu realmente confio na minha primeira impressão quando eu desço as escadas de um trem ou avião e entro em um lugar pela primeira vez. Mas eu também posso sentar num banco e olhar pros meus arredores por horas e depois começar a fotografar. Só pra entrar no ritmo das coisas. Então eu procuro combinações de pessoas e lugares que me atraem, mas não tem que ser nada extraordinário pra chamar a minha atenção. A luz e o destino fazem tudo, eu tenho que ter sorte pra ver a combinação quando acontecer.

Na sua opinião, o que caracteriza uma foto urbana memorável?

Essa é a pergunta mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. É fácil ter a imagem na sua cabeça e imaginar como teria que ser, mas você não sabe até acontecer. Isso é o que é divertido e desafiante na fotografia de rua, você nunca sabe o que vai acontecer e você só tem que ir com o fluxo e ser capaz de parar quando você sentir que você está vendo algo especial quando for acontecer.

Eu diria que uma foto de rua memorável é uma que combina suspensão, surpresa, atmosfera e emoção. Tudo junto em uma só imagem que abala a sua mente de tão linda e ela faz com que você veja coisas como você nunca viu antes. E se você for um fotógrafo muito bom, pessoas vão reconhecer uma parte sua na imagem – o seu lado peculiar, os seus sonhos românticos, as suas piadas irônicas...

Você viajou para um dos lugares mais lindos do mundo. Quando você tira fotos de pessoas que você encontrou pela primeira vez, como você se conecta com eles para capturar uma ótima foto?

Na verdade, eu tento ser invisível! Eu não quero mudar o comportamento de pessoas com a minha presença, por isso eu sempre tento ser muito discreta. E quando eu percebo que eles me notaram, eu saio de lá e vou procurar outro lugar.

O que te motiva a fotografar e criar um lindo trabalho todos os dias?

Eu amo o que eu sinto quando eu tiro uma foto bonita, é como uma carga de adrenalina. Eu quero sentir essa emoção e surpresa todos os dias e eu quero ter algo tangível que retrata estes sentimentos. Eu quero surpreender as pessoas o tanto quanto eu quero ser surpreendida, para transmitir as emoções que eu senti durante o ensaio e deixar as pessoas sentirem que elas estavam lá para ver o que eu vi e experimentei. Esse é o meu objetivo.

Um dos seus projetos se chama “No mesmo lugar a mesma hora”. Você pode nos contar um pouco sobre a história por trás dessa linda série de fotos?

Este projeto veio de um momento de frustração durante a minha viagem à Escócia Janeiro passado. Eu senti a necessidade de tirar fotos, mas por algum motivo eu não conseguir ver. Nada.

Até um dia, eu estava vendo o sol nascer e eu peguei o meu celular e fiz uma dupla exposição composta por duas fotos que eu tirei no mesmo lugar, no mesmo horário, mas de um ponto de vista diferente – porque eu senti que uma só foto não iria expressar tudo. Então aquele momento ativou algo e eu continuei a busca por paisagens fascinantes para criar um colapso em uma só imagem que descreveria elas como um conjunto, mas adicionando uma gota de sonho e fantasia também.

Você tem algum projeto futuro que você gostaria de compartilhar conosco?

Estou planejando uma viagem para Beijing este verão. A única coisa que eu sei no momento é o destino, então nos próximos meses, eu vou dar uma pesquisa e depois... bem, eu vou ver o no que vai dar!


Todas as fotos mostradas neste artigo foram usadas com a permissão da Camilla Ferrari. Se você quiser ver mais do seu trabalho, siga Camilla no Instagram e dê uma olhada no seu site.

escrito por Ivana Džamić no dia 2017-03-28 em #pessoas

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