Transformando Fotografia em Ativismo: Uma Entrevista com Steve Cagan

2017-06-29

Nós podemos dizer com toda certeza, que Steve Cagan é um dos poucos fotógrafos que encontraram o seu objetivo na fotografia. Tudo começou quando ele era apenas um menino cercado por um grupo de pessoas criativas. Com o passar do tempo, ele começou a se fascinar cada vez mais com a fotografia e com fotógrafos que usavam o seu talento para lutar contra vários problemas sociais. Muita coragem foi necessária para usar a fotografia assim, mas Steve estava determinado a fazer uma mudança – mudanças reais e verdadeiras na sociedade. Nesta entrevista, ele fala sobre os desafios que ele enfrentou na sua carreira e revela o que é uma foto memorável.

Oi Steve! Seja bem-vindo a Lomography Magazine! Como você entrou no mundo da fotografia? O que te inspirou a iniciar esta jornada fotográfica?

Na minha juventude, eu estava em um círculo de amigos criativos – escritores, músicos – e quando a minha família comprou uma câmera boa, como eu descrevo abaixo, eu percebi que eu encontrei a área de trabalho criativo que eu curto e poderia ser bom nisso. Depois, quando eu comecei a aprender mais sobre fotógrafos que usavam os seus trabalhos para lutar contra problemas sociais – pessoas que na época eram chamados de “fotógrafos da consciência” – eu encontrei um caminho para combinar as minhas necessidades criativas e o meu desejo de contribuir para os movimentos para uma mudança e para a justiça social.

Por que você escolheu a fotografia documentária? O que te atraiu?

A história da fotografia documentária vem carregada de sérios problemas – atitudes de classe, raciais e superioridade de gênero, serviços do colonialismo, falta de colaboração com os problemas reais dessas pessoas reais nas imagens, e existem outros problemas ideológicos que ocorrem – talvez isso não seja o meio para entrar em detalhe.

Mas a fotografia documentária também tem uma história rica de fotógrafos que tentaram usar o meio para contribuir às vidas das pessoas nas imagens, apoiar os movimentos de mudanças sociais, para ajudar a iluminar os problemas importantes. Esses são os trabalhadores visuais que são os meus heróis e modelos, e esse é o lado do documentário que me atraiu.

E mesmo com todo o passada histórico que ela tem, e com a tendência de chamar uma vasta gama de trabalho de “documentário”, (eu escrevi sobre isso em outro lugar), eu procurei um outro termo para descrever o que eu quero fazer – as vezes eu penso no que eu faço como fotografia de solidariedade, mas geralmente eu uso a expressão “fotografia ativista” para descrever o que eu sou e o que eu estou tentando fazer.

Você também é um ativista e parece que a sua fotografia é associada com um monte de eventos sociais e políticos que estão acontecendo no mundo. O que é a lição mais valiosa que você aprendeu fazendo este tipo de fotografia?

Das várias coisas que eu aprendi, talvez há duas coisas que são mais importantes. A primeira é que realmente é possível a contribuir à luta para justiça com quais certas organizações ou comunidades estão se envolvendo – mas que para contribuir, você primeiro precisa entender os problemas e desenvolver um relacionamento com tal organização ou comunidade.

Sem esta organização, você pode, é claro, fazer fotos muito boas, mas você não pode ter a confiança, que as suas imagens irão servir como uma contribuição para aqueles que estão sofrendo. As “contribuições” em quais eu estou pensando incluem: providenciar imagens para comunidades e organizações para elas poderem usa-las nos seus esforços, ambos internos e externos; criar consciência em outras áreas sobre os problemas, criar contatos e solidariedade com as pessoas nas imagens; e mais.

A segunda coisa importante que eu aprendi é como crítico ter em conta que fotografias (como muitas outras imagens) são polêmicas – que elas servem para vários significados. Assim que nós entendermos que o significado que um telespectador põe em uma imagem é o produto de uma troca entre a imagem e a história de vida dele ou dela, sua posição social, o contexto em qual eles veem a imagem e mais, nós ficamos cientes da importância crítica para este tipo de trabalho (não para a fotografia em gênero, mas para o trabalho do qual eu estou falando), tendo que certificar que o significado que nós queremos comunicar é transmitido ao telespectador. Isso abre uma série de questões sobre o contexto em qual nós mostramos as nossas fotos.

Você mencionou que as vezes, o trabalho que você faz parece mais com jornalismo do que uma forma de arte. A sua opinião mudou sobre isso?

Pode parecer assim para certas pessoas. Na realidade, eu tenho o privilégio de poder me livrar de certas pressões que muitos fotojornalistas enfrentam, especialmente a pressão de prazos finais e a necessidade de mudar de uma história para outra rapidamente. Eu acho que o meu trabalho se encaixa etilicamente e também a respeito do conteúdo em meio que um limbo entre, até um certo ponto, sendo parte de arte, documentário, jornalismo e ciência social, especialmente antropologia.

Isso é um dos motivos porque pessoas da arte e outras instituições têm dificuldade de entender o que fazer com o meu trabalho e explica uma parte do motivo porque eu tive tanta dificuldade de exibir e especialmente publicar o meu trabalho. No final, é o que é, não é fácil de encaixar em uma categoria ou um gênero concreto, e a minha satisfação vem de ver o trabalho sendo usado, especialmente pelas organizações e comunidades das várias pessoas nas imagens.

Qual foi a sua primeira câmera?

Como menino, como várias crianças, eu tinha uma Kodak Brownie – a primeira câmera que eu usei já desapareceu, mas aqui está uma foto da segunda:

A primeira câmera séria que eu usei foi adquirida pela minha família quando eu tinha 14 anos, em 1957. Foi uma câmera de 35mm Voigtländer de lente fixa. Dentro de pouco tempo depois de pôr a câmera nas minhas mãos, eu já estava revelando filme e senti uma atração muito forte por essa atividade – mesmo sendo só um hobby.

Depois de anos fazendo isso, o que você descreveria como uma foto memorável?

Esta pergunta é importante, principalmente vivendo em um mundo em qual nós recebemos um maremoto de imagens todo dia, em qual as que nós produzimos têm dificuldade de serem vistas, realmente vistas. Primeiro, a imagem tem que ter uma qualidade técnica boa o suficiente para que ela não seja simplesmente ignorada.

Depois, pra mim, fotos memoráveis são aquelas que formam um relacionamento com o telespectador esteticamente ou formalmente, isso é a recompensa de ser visto, e isso sugere que nós queremos que o telespectador se relacione com um conteúdo real que vai além de “uma boa foto”.

Quais desafios você encarou fazendo este trabalho?

Eu mencionei certos problemas críticos e sociais ao fazer este tipo de trabalho (eu estou trabalhando em uma versão final de um ensaio sobre este tema que eu apresentei e publiquei em várias versões em um número de locais). Mas tem um outro desafio que pode ser bastante desmoralizante e deprimente: mesmo que trinta anos atrás a situação era diferente, hoje em dia, pelo menos nos Estados Unidos, ainda há muito pouco interesse neste tipo de trabalho das instituições de foto, arte e publicações, quais apoiadores possibilitam o trabalho a ser visto por mais pessoas.

Este tipo de trabalho não ganha vida se ele não é visto por muitos, e a falta de apoio por ele – fora a falta do apoio financeiro – foi o maior desafio para mim. Por outro lado, a grande satisfação que o trabalho providencia é ver ele ser usado por organizações e comunidades precisam de atenção para contribuir a suas lutas.

O seu trabalho tem o objetivo de integrar a fotografia com o ativismo social e político. Como a fotografia ativista influenciou você como uma pessoa e como um artista?

Eu diria que é ao contrário – foram os meus vários anos no ativismo e o meu interesse e amor pela prática fotográfica e criar imagens que se juntaram ao passar dos anos e me permitiram a criar uma função artística e social para mim, o que eu chamo de fotografia ativista.

Você tem algum projeto excitante por vir que você gostaria de compartilhar conosco?

Eu vou continuar a trabalhar na área das florestas tropicais do Pacífico de El Chocó, Columbia, colaborando com as comunidades lá, tentando se opor as ameaças e os prejuízos que eles sofrem nas mãos de grupos armados e do governo, com uma ênfase particular nos danos ambientais e sociais sendo feitos pela extração de ouro e desmatamento indiscriminado.

No momento, eu estou tento uma exibição retrospectiva de uns dos meus projetos ativistas dos últimos anos na galeria SF Camerawork em São Francisco, Califórnia. Eu espero poder expandir esta exibição em um livro, e eu realmente espero que outros locais irão se interessar em mostrar a exibição.


Todas as fotos mostradas neste artigo foram usadas com a permissão de Steve Cagan. Se você quiser ver mais do trabalho de Steve, dê uma olhada no seu site.

escrito por Ivana Džamić no dia 2017-06-29 em #pessoas

Mais Artigos Interessantes